Entrevista Com Luciana Maia - Parte 2

 

Ana: Luciana, outra curiosidade nossa é porque que os trabalhos e espetáculos produzidos pela sua companhia são mantidos na língua inglesa?

Luciana: Ótima pergunta! Num primeiro momento não eram! Quando a gente voltou para o Brasil começamos fazendo coisas em português porque estamos indo para o Brasil vamos fazer coisa em português, as pessoas falam em português então querem ver coisas em português. Versionar um musical é difícil, mas versionar BEM um musical é praticamente impossível, nós fizemos um bom trabalho e eu me orgulho do trabalho que nós fizemos em português. Nós fizemos uma peça e um musical em 2016, em português, a peça foi The Pillowman [1], a gente não mudou o título mas traduzimos toda a peça para português, e o Evil Dead [2] – O musical, que nós também não traduzimos o título mas versionamos todas as músicas e traduzimos todo o diálogo.

O trabalho do versionista, que quem fez foi o Stevan Corrêa que é meu parceiro no trabalho e na vida. Eu não sei nem se eu consigo dimensionar o quão difícil é fazer um bom trabalho de tradução de músicas, porque a prosódia [3] precisa caber, não é só colocar, não é só essa palavra “house” em inglês, eu vou traduzir para “casa” em português, não necessariamente porque “house” é uma sílaba, “casa” são duas, não cabe no mesmo lugar, e não é só uma questão de rima é uma questão também de sílaba tônica, então por exemplo, na tradução do Wicked [4], que tá vindo aí de novo, pela segunda vez agora em São Paulo, foi divulgado ontem ou anteontem, eu acho, a lista do novo elenco para este revival. Eu não sei inclusive se eles mudaram isso ou não, mas em algum momento, a versão para português da música “Wonderful” que é (cantarola)... Wonderful they call me wonderful..., que é a que o mágico canta foi traduzido pra (cantarola)... MagiCÚ.., eu falei gente não dá. Cabe? Ok, cabe. Mas como é que você coloca num palco, numa produção milionária uma cacofonia dessas? E assim, um grande trabalho, não é um trabalhinho de fundo de quintal. Um grande trabalho num espetáculo milionário, e a pessoa tá no palco cantando (cantarola)...MagiCÚ ..., enfim, é o exemplo mais clássico que eu gosto de usar e eu acho que e algum momento eles mudaram isso, porque, né?

Mas assim, tem toda a questão da prosódia, questão de fazer caber na música e além de tudo isso, tem que ser algo que aquele personagem diria daquela forma, então quando alguém escreve um musical, não escreve só pensando no que vai caber, é o que, por exemplo, faz eu ser completamente apaixonada pelo trabalho do Sondheim [5]. Eu sou apaixonada pelos trabalhos do Sondheim porque ele escreve as músicas de cada personagem pensando em como aquele personagem especificamente se expressaria, então por exemplo, em Into the Woods [6], as músicas do Jack não rimam, porque ele não é inteligente, isso pra mim é genial, porque ele é um menino que é burro coitado, ele é limitado, ele aceita trocar três feijões por uma vaca, então as músicas dele especificamente não rimam, apesar de Sondheim ser um autor, ter sido, ele faleceu ano passado, há um ano, aliás ano retrasado 2021, novembro de 2021, um autor que trabalha muito extensamente com rimas, não só no final de cada verso mas entre os versos e aliterações, e enfim, um trabalho genial e aí ele faz algo desse tipo. São essas nuances que a gente não consegue traduzir, são essas nuances que são perdidas na tradução, então por um lado, fazer os musicais em inglês limita o nosso público, óbvio, a gente sabe disso mas por outro lado a gente consegue manter a nuance artística, a gente consegue honrar o trabalho do autor e do compositor, algo que a gente muitas vezes não consegue fazer em português quando a gente traduz, versiona algo, muito se perde, e essa honra ao autor, essa honra ao letrista, essa honra ao compositor é algo pela qual eu prezo muito, eu mais do que o Stevan, então eu faço questão disso, e ao mesmo tempo, depois que fizemos esse primeiro ano de produções em português nós descobrimos ,por acaso, que existe sim um mercado pra teatro, teatro musical, artes performáticas, em inglês, existe um público bilíngue que tem esse interesse, que quer fazer as coisas em inglês, que quer estar em um ambiente onde o inglês possa ser exercitado de uma forma que não seja dentro de uma sala de aula com um livro copiando o verbo to be, então nós acabamos criando um espaço, uma comunidade onde as pessoas estão imersas na língua inglesa, que é bom para elas pelo inglês por si e ao mesmo tempo elas estão fazendo isso com algo que elas gostam, que não é só o inglês pelo inglês, faz sentido? Então foi a soma da oportunidade de vermos que existe sim um público para o teatro e o teatro musical em inglês, em Brasília, não só com o público internacional, mas com o público brasileiro bilíngue e também a vontade de honrar, manter o trabalho original. Basicamente juntamos a fome com a vontade de comer.

 

 



[1] The Pillowman - Peça de teatro escrita pelo dramaturgo, roteirista e cineasta Martin McDonagh, em 2003.

[2] Evil Dead – o musical, peça de teatro musical de rock baseada na franquia Evil Dead.

[3] Prosódia é o elemento de estudo da língua portuguesa que está ligado à oralidade, ou seja, à forma como as palavras são pronunciadas (sua entonação, ritmo, ...).

[4] Wicked – Grande sucesso da Broadway. Musical que faz referência ao clássico filme de 1939 (O mágico de Oz), é a história não contada das bruxas de Oz. Foi composto por Stephen Schwartz com libreto de Winnie Holzman.

[5] Sondheim, Stephen Joshua – Foi um icônico compositor e letrista estadunidense, uma das figuras mais importantes para o teatro musical do séc. XX

[6] Into the Woods – Musical com música e letra de Stephen Sondheim e libreto de James Lapine. Nesse musical é recontado de forma diferente as histórias mais famosas dos contos de fadas.

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